Tocantins registra três feminicídios na primeira semana de 2026, maior número que janeiro de 2025
Especialistas alertam que relacionamentos abusivos, com controle e isolamento, frequentemente antecedem as agressões físicas.
Na primeira semana de 2026, o Tocantins registrou três casos de feminicídio, um número superior ao total do mês de janeiro de 2025, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP). Especialistas entrevistados pelo g1 apontam que, em muitos casos, as agressões físicas são precedidas por relacionamentos abusivos, marcados por violência psicológica, financeira, sexual, ameaças e isolamento.
Os dados do Núcleo de Coleta e Análise Estatística (Nucae) da SSP mostram uma tendência de crescimento da violência contra a mulher no estado. Em 2024, foram registrados 12 feminicídios. Em 2025, esse número saltou para 20. A maioria das vítimas são mulheres autodeclaradas pardas, que viviam em união estável e foram mortas dentro de casa.
Controle e isolamento são sinais de alerta
Os relacionamentos abusivos são construídos com base no controle, onde o parceiro toma decisões sobre amizades, locais frequentados, redes sociais e horários da vítima. A psicóloga Elisa Feitosa Lopes explica que esse comportamento afeta profundamente a autoestima das mulheres. "Se a pessoa se identifica com mais de um desses sinais, é importante olhar para essa relação com mais cuidado", alerta a especialista.
Para a psicóloga, muitas vítimas não percebem os sinais de violência silenciosa devido a uma cultura que ensina as mulheres a amar apesar dos problemas e a se sacrificar pela relação. A construção de uma rede de apoio, com familiares, amigos ou profissionais como assistentes sociais e psicólogos, é uma etapa crucial para evitar ou sair dessa situação.
Rede de proteção e desafios no interior
O Tocantins possui uma rede de 14 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e Vulneráveis (DEAMVs), localizadas em Palmas (duas unidades, sendo uma com atendimento 24h), Araguaína, Araguatins, Augustinópolis, Gurupi, Porto Nacional, Paraíso do Tocantins, Colinas do Tocantins, Guaraí, Tocantinópolis, Miracema do Tocantins, Dianópolis e Arraias. O estado também disponibiliza o aplicativo Salve Mulher para denúncias.
A promotora e coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público, Flávia Rodrigues, avalia que o estado possui um arcabouço normativo alinhado à Lei Maria da Penha, mas que é necessário interiorizar os serviços. "As redes de proteção já estão sendo articuladas. O que falta? A interiorização dessa rede de proteção nos municípios menores", afirmou.
Casa da Mulher Brasileira e ações da PM
Em Palmas, a Casa da Mulher Brasileira registrou 1.567 atendimentos em 2025 e tem capacidade para abrigar até 20 mulheres e seus filhos por até seis meses, oferecendo atendimento socioassistencial, psicológico e jurídico. A Polícia Militar do Tocantins (PMTO) informou que, em 2025, atendeu 807 mulheres em situação de violência e realizou 863 fiscalizações de Medidas Protetivas de Urgência.
A corporação destacou a atuação da Patrulha Maria da Penha e anunciou que, em 2026, implementará um ciclo de capacitação avançada para todo o contingente sobre atendimento especializado em casos de violência doméstica. O governo estadual afirmou que a expansão da rede de delegacias especializadas é objeto de estudos sistemáticos pela SSP.
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