PMs criaram grupo "Operação Anamon" antes de chacina em Miracema, diz Justiça
23 policiais militares tiveram prisão preventiva decretada por suspeita de participação na morte de seis pessoas na cidade.
Policiais militares investigados pela Chacina de Miracema, no Tocantins, teriam criado um grupo em um aplicativo de mensagens com o nome "Operação Anamon" horas antes da morte de duas vítimas na delegacia da cidade. A informação consta na decisão judicial que determinou a prisão preventiva de 23 PMs, ocorrida nesta sexta-feira (8).
Grupo fazia referência a sargento morto
O nome do grupo faz referência ao sargento da PM Anamon Rodrigues, morto no dia 4 de fevereiro de 2022, durante uma troca de tiros no setor Novo Horizonte II, em Miracema. Após a morte do policial, outros seis assassinatos foram registrados na cidade. As vítimas foram: Manoel Soares da Silva, Edson Marinho da Silva, Valbiano Marinho da Silva, Aprigio Feitosa da Luz, Pedro Henrique de Sousa Rodrigues e Gabriel Alves Coelho.
Os 23 policiais estariam envolvidos em "eventos marcados por extrema violência" em um contexto de represália, que inclui a chacina, invasão armada em uma unidade policial e ocultação de provas, conforme a decisão judicial.
Invasão à delegacia e mortes
De acordo com a investigação, o policial que criou o grupo teria participado da mobilização das equipes e ficou sob a posse de uma caminhonete. Esse veículo foi flagrado por câmeras de segurança indo em direção à delegacia e deixando o local instantes após o ataque.
Manoel Soares e Edson Marinho, pai e irmão de Valbiano — considerado pela polícia o suspeito de matar o sargento Anamon —, foram levados para a delegacia na madrugada do dia 4 de fevereiro de 2022. Após prestarem depoimento, foram liberados, mas decidiram ficar no local até o amanhecer para voltar para casa em segurança. Nesse período, a delegacia foi invadida por 15 pessoas encapuzadas que renderam policiais civis e atiraram contra pai e filho.
Conforme a decisão, várias viaturas começaram a circular e estacionar nas imediações da delegacia a partir das 4h30. Manoel e Edson foram mortos por volta das 6h29.
Ocultação de provas e adulteração de sistemas
Imagens de câmeras de segurança mostraram o major Yurg Noleto Coelho, apontado como "liderança informal" das equipes à paisana, emitindo ordens e mantendo uma viatura posicionada em um local com visualização das rotas de fuga. Após a invasão, ele e outros policiais teriam ido a um posto de combustível recolher os HDs das câmeras de segurança que poderiam ter captado as movimentações da chacina.
No celular do policial que acompanhou o major, foram encontradas fotos dos HDs recolhidos e de câmeras de monitoramento com marcações em vermelho. Além disso, viaturas tiveram os sistemas de rastreamento adulterados no período da invasão. Um PM também teria retirado o GPS de uma viatura e instalado em outra para gerar "trilhas artificiais" compatíveis com o cortejo do sargento Anamon.
Outras execuções
No dia 5 de fevereiro de 2022, Aprigio Feitosa da Luz, de 24 anos, Gabriel Alves Coelho, de 21 anos, e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18 anos, foram encontrados mortos no loteamento Jardim Buriti. Segundo a decisão, quatro jovens foram abordados em um posto de combustível durante uma festa e colocados em veículos brancos sob pretexto de que seriam encaminhados para a delegacia. Eles foram levados ao local, onde foram executados. Apenas um sobreviveu. A ação teria sido em represália à morte do sargento Anamon.
Defesa e posição da PM
O advogado Paulo Roberto, que faz a defesa de parte dos militares, informou que ainda não teve acesso à decisão que decretou as prisões. "Tão logo a gente tenha conhecimento, teremos condições de emitir um parecer acerca da situação", afirmou.
A Polícia Militar do Tocantins informou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO, prestando o apoio institucional necessário ao cumprimento das determinações judiciais. Afirmou que "não compactua com quaisquer desvios de conduta praticados por seus integrantes" e que os fatos serão apurados pelos órgãos competentes, garantindo o devido processo legal.
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